Full Flight Simulator: onde o piloto aprende realmente a errar com segurança!
- Comandante Bassani

- 23 de jan.
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Por Comandante Bassani - ATPL/B-727/DC-10/B-767 - Ex-Inspetor de Acidentes Aéreos SIA PT - www.personalflyer.com.br/ - captbassani@gmail.com - Jan/2026

Quando se fala em Full Flight Simulator, não estamos falando de um “jogo sofisticado”, mas de uma réplica em tamanho real de um cockpit específico, montada sobre uma plataforma de movimento multidirecional, com todos os sistemas, displays, sons e respostas da aeronave modelados para reproduzir o mais fielmente possível o voo real.
FAA, EASA e outras autoridades de aviação civil classificam esses dispositivos em níveis (A, B, C e D), sendo o Level D o padrão mais alto: movimento completo, visual de alta resolução e desempenho tão próximo do real que permite inclusive treinos “zero-flight time”1 para certos tipos de operação. O objetivo é que o piloto aluno saia do simulador diretamente para o line flying under supervision (LIFUS) com zero horas de voo no tipo real, daí a designação “zero flight time”.
Para o piloto, isso se traduz num ambiente controlado onde é possível treinar tudo o que seria inaceitável arriscar em linha: panes múltiplas, rejeição de decolagem no limite, aproximações com meteorologia crítica, falhas de sistemas em momentos de alta carga de trabalho e cenários complexos de CRM e tomada de decisão. A filosofia por trás dos FFS modernos segue princípios de treino baseado em evidências (EBT), conforme orientado pela ICAO (Doc 9995) e incorporado por autoridades como EASA e FAA: focar nas competências que mais impactam a segurança (gestão de automação, consciência situacional, liderança, comunicação) e nos cenários que a análise de dados mostra serem mais críticos.
Do ponto de vista regulatório, os FFS fazem parte do guarda‑chuva de Flight Simulation Training Devices (FSTD), com requisitos detalhados para qualificação inicial, manutenção de fidelidade, uso de dados de ensaio em voo e atualização de software sempre que a frota real muda. Isso garante que o que você treina no simulador corresponda, dentro de tolerâncias estreitas, ao que a aeronave faz em operação, seja em envelope normal, ou em regimes de performance próximos ao limite.
Para o instrutor, isso significa ter confiança de que cada sessão cumpre não só o programa interno da companhia, mas também os requisitos de qualificação e cheques definidos por FAA/EASA e refletidos em manuais da empresa.
Para nós, pilotos, a mensagem central é clara: o Full Flight Simulator é o laboratório em que se erra, discute, ajusta e repete até que o desempenho atinja o padrão desejado — antes de levar qualquer passageiro a bordo. Em um cenário de demanda crescente por novos pilotos e frota global em expansão, entender o potencial do FFS não só como requisito regulatório, mas como ferramenta estratégica de desenvolvimento de competência e gestão de risco, é parte fundamental do profissionalismo na cabine.
Bons voos!
Comandante Luiz Bassani
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1- Zero-flight time in aviation, normalmente chamado Zero Flight Time Training (ZFTT), é um conceito de formação de type rating em que todo o treino é realizado em simulador de voo completo, sem qualquer hora de instrução no avião real antes do skill test ou do início da LIFUS.
Fontes
Airbus – “What is a Full Flight Simulator” (definição, papel no treino e características técnicas de FFS de última geração).
EASA – CS‑FSTD(A) e página oficial sobre Flight Simulation Training Devices (definições, níveis de qualificação e requisitos de fidelidade).
FAA – 14 CFR Part 60 e definições de Full Flight Simulator / FSTD (regras de qualificação e uso em treino e cheques).
ICAO / SKYbrary – Doc 9995 Manual of Evidence‑based Training (enquadramento de EBT e uso de FSTD na formação por competências).
Materiais técnicos sobre evolução e valor de FFS em centros de treino aeronáutico.





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