O voo TAP em Praga e o CFIT evitado - Limite cognitivo?
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Por Comandante Bassani - ATPL/B-727/DC-10/B-767 - Ex-Inspetor de Acidentes Aéreos SIA PT - www.personalflyer.com.br - captbassani@gmail.com - Fev/2026

Imagem IA
Um CFIT “evitado por segundos”.
No dia 17 de janeiro de 2026, o voo TP1240 da TAP Air Portugal, um Airbus A320neo CS‑TVG que fazia a rota Lisboa–Praga, viveu um episódio que as autoridades checas já classificaram como um dos incidentes mais graves das últimas décadas no aeroporto Václav Havel.
Durante a aproximação à pista 06, a aeronave (de acordo com os dados), desceu abaixo da altitude mínima de segurança publicada para o procedimento, com alta razão de descida e velocidade crescente, até ficar a menos de 1000ft acima do terreno numa área de relevo acidentado a oeste de Praga.
Segundo o relatório preliminar notificado pelas autoridades, a tripulação desceu abaixo da altitude autorizada de 4000ft, atingindo uma altitude mínima de 968ft (RA) acima do terreno antes de iniciar uma recuperação agressiva. O TAWS (EGPWS) emitiu alertas de proximidade de terreno e, praticamente em simultâneo, o controle de aproximação chamou atenção para a violação da altitude, instruindo a subida imediata. A aeronave subiu até cerca de 5850ft e efetuou uma segunda aproximação e pouso sem mais anomalias.
A autoridade de investigação checa (UZPLN) classificou o evento como “incidente grave” e confirmou que o avião esteve a “poucos segundos” de um acidente tipo CFIT – Controlled Flight Into Terrain , com voo controlado em direção ao terreno sem que a tripulação estivesse plenamente consciente da proximidade do impacto.
A TAP informou que abriu investigação interna, está a cooperar com as autoridades checas e que a tripulação foi temporariamente afastada de serviço, prática habitual neste tipo de ocorrência.
Contexto operacional: aproximação, relevo e meteorologia
O cenário operacional em Praga ajuda a entender a gravidade do episódio. A aproximação ILS para a pista 06 parte de um setor oeste com terreno irregular, colinas, obstáculos e estruturas industriais, onde as altitudes mínimas de setor e de procedimento rondam os 4000ft para garantir separação adequada em relação ao relevo. Descer significativamente abaixo desse patamar, sobretudo com razão de descida elevada, coloca rapidamente a aeronave em regime de altitudes AGL críticas numa área em que não há “folga” de terreno.
Naquele dia, a imprensa checa e internacional referiu condições meteorológicas adversas, com nevoeiro e visibilidade degradada durante a aproximação a Praga. Nessas condições, a tripulação depende fortemente da gestão correta da automação, da leitura rigorosa das altitudes mínimas e do cross‑check constante entre indicação barométrica, rádio‑altímetro e referências do procedimento.
Perfis reconstruídos a partir de dados públicos de tracking (FlightRadar24) mostram uma descida com tendência de aumento de velocidade, coerente com o relato de “alta razão de descida” antes da recuperação para altitude segura.
Embora as causas oficiais ainda não tenham sido publicadas, diversos analistas apontam, como hipótese, uma configuração inadequada dos modos de piloto automático/gestão de voo durante a descida e aproximação, um padrão frequente em eventos classificados como precursores de CFIT. Em muitos desses casos, pequenas discrepâncias entre o que a tripulação pensa que o avião está a fazer e o que os modos efetivamente comandam só se tornam evidentes quando um alerta TAWS ou uma intervenção do ATC revelam o erro de trajetória.
Limite cognitivo e viés de continuação de plano
Quando um voo se aproxima de um cenário de CFIT, quase nunca é por “falta de técnica básica” em sentido clássico; é por saturação cognitiva, viés e falhas na gestão de automação em ambiente de carga mental elevada. Estudos com HRV (Variabilidade da Frequência Cardíaca) e EEG em simuladores de A320 mostram que aproximações e pousos concentram picos de carga mental, com deterioração de controle fino, monitorização e tomada de decisão, enquanto o cruzeiro funciona como fase de recuperação fisiológica.
Nessas fases críticas, dois fenómenos se tornam especialmente perigosos: o limite cognitivo, o ponto em que o cérebro já não consegue integrar todas as variáveis relevantes e o plan continuation bias, a tendência de continuar a execução do plano original apesar de sinais de que o contexto mudou. Sob pressão de tempo, meteorologia degradando e talvez vetores tardios ou alterações táticas, é muito fácil para uma tripulação ficar “presa” à ideia de que a aproximação ainda é viável, mesmo quando a trajetória vertical já começou a violar margens de segurança.
No caso de Praga, o perfil descrito (descida abaixo da altitude mínima, aumento de velocidade, TAWS, chamada urgente do ATC, recuperação tardia e pouso subsequente) encaixa numa narrativa clássica de CFIT evitado, em que o último elo TAWS + intervenção do controle, impede a colisão com o terreno.
Um ponto-chave para o treinamento é justamente este:
Sem o TAWS e sem o ATC a funcionar como barreira adicional, quantas vezes o limite cognitivo da tripulação teria sido excedido sem que ninguém percebesse a tempo?
O que precisa mudar no simulador
Se queremos que casos como o TP1240 resultem em aprendizado sistémico, o simulador tem de treinar o cérebro que opera a cabine, não apenas a execução “limpa” do perfil publicado. Isso significa desenhar exercícios que exponham deliberadamente a tripulação a cenários de saturação de carga, viés de continuação de plano e erros de automação, com debriefing focado em como o piloto geriu o seu próprio limite cognitivo.
Alguns pontos práticos que operadores podem e deveriam exigir do treinamento:
Criar cenários de aproximação com vetores tardios, meteorologia degradando, mudanças de pista e pequenas falhas técnicas, em que a única resposta segura seja simplificar o plano (go‑around, espera, alternar) e não “fazer caber” dentro dos mínimos.
Usar métricas objetivas de desempenho e workload (erros de leitura, trajetória instável, tempo de reação a alertas) para mostrar, em debriefing, quando a tripulação já passou do limite cognitivo saudável.
Tratar viés de continuação de plano e viés de confirmação como ameaças internas dentro do modelo TEM, com estratégias explícitas de mitigação (pausa tática, check and challenge, redefinição de plano).
Avaliar e reforçar competências observáveis de Workload Management, Automation Management e Situational Awareness, alinhadas a EBT/CBT, e não apenas “se o perfil foi cumprido”.
No fundo, a mensagem do incidente de Praga é desconfortável, mas simples: enquanto o treinamento não incorporar limite cognitivo e viés como temas centrais, vamos continuar a depender, demasiadas vezes, de alertas de TAWS e de controladores atentos para evitar CFIT “por segundos”.
Ajude a aumentar a segurança de voo, mande para seus contatos!
Bons voos!
Comandante Luiz Bassani
Fontes
UZPLN / notificação preliminar do incidente TP1240 – descida abaixo de 4 000ft autorizados, altitude mínima de 968ft AGL, recuperação até 5 850ft.
Cobertura internacional sobre o incidente TP1240, incluindo reconstruções públicas de perfil e declarações da autoridade checa sobre “segundos” até ao impacto.
AIP e cartas de aproximação de Praga (LKPR), setor oeste e aproximação ILS RWY 06, incluindo altitudes mínimas de setor/procedimento.
Artigo “Limite cognitivo, viés e treinamento: o que realmente precisa mudar no simulador”, base para a discussão de carga cognitiva, viés e desenho de cenários em simulador.
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