Viés cognitivo na cabine: o inimigo invisível da segurança operacional
- há 12 horas
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Por Comandante Bassani - ATPL/B-727/DC-10/B-767 - Ex-Inspetor de Acidentes Aéreos SIA PT - www.personalflyer.com.br/ - captbassani@gmail.com - Fev/2026
Depois de centenas de mensagens, comentários e perguntas de colegas de voo, chegou a hora de dar um passo além. Este novo post foi preparado justamente para responder a essas demandas, aprofundando o tema e trazendo mais elementos práticos para o dia a dia de quem vive a operação na cabine. A ideia é seguir a mesma linha: conteúdo técnico sólido, linguagem direta e foco total na realidade de comandantes, copilotos e instrutores.

Imagem IA
Mesmo em operações altamente padronizadas, pilotos profissionais continuam vulneráveis a vieses cognitivos que distorcem a percepção de risco e influenciam decisões críticas. Estudos e revisões de ocorrências em aviação comercial mostram que viés de sobre‑confiança, viés de continuação de plano, ancoragem, viés de autoridade e viés de confirmação aparecem repetidamente em eventos de segurança, sobretudo nas fases de aproximação e aterragem.
O viés de continuação de plano (“get‑there‑itis”) leva a tripulação a insistir na rota, aproximação ou estratégia originalmente escolhida, mesmo perante sinais claros de degradação de condições ou de violação de critérios de estabilização.
Revisões de acidentes e estudos da NASA indicam que uma parte significativa dos erros táticos em decisão está associada precisamente à escolha de continuar com o plano inicial apesar de múltiplos indícios de que seria mais seguro desviar, regressar ou efetuar uma ida‑à‑volta. Em termos práticos, isso pode significar prosseguir VFR em condições marginais até ao impacto com o terreno, ou manter uma aproximação instável para além do ponto em que o go‑around já deveria ter sido executado.
O viés de confirmação reforça esse quadro ao levar o piloto a procurar, interpretar e valorizar sobretudo as pistas que “validam” o seu modelo mental atual da situação. Experiências com pilotos em simulação mostram que, sob alta carga, há tendência a selecionar apenas as indicações que encaixam no plano desejado, desvalorizando sinais de degradação de meteorologia, discrepâncias instrumentais ou avisos de sistemas. Em linha com a literatura em fatores humanos, isso cria um ciclo em que quanto mais avançado o voo e mais forte o compromisso com o plano, mais difícil se torna reconhecer que é preciso mudar de estratégia.
Outros vieses relevantes demonstrados em estudos com pilotos incluem o viés de resultado e a sobre‑aprendizagem a partir de quase‑acidentes. Pesquisas em psicologia aplicada mostram que decisores tendem a avaliar a qualidade de decisões passadas sobretudo pelo resultado final (por exemplo, um pouso sem incidentes), e não pelo processo de decisão em si. Na prática, decisões arriscadas que “correram bem” podem ser codificadas como aceitáveis, reforçando padrões perigosos que só se revelam em toda a sua gravidade quando o desfecho é negativo.
Para mitigar esses efeitos, a evidência académica e as recomendações de autoridades e grupos de segurança convergem em algumas linhas de ação. Primeiro, tornar os vieses tema explícito de treinamento, integrando‑os em programas de CRM, EBT e LOFT, com cenários desenhados para provocar e depois desmontar a continuação de plano, a ancoragem na primeira informação e a confiança exagerada na automação. Segundo, incentivar uma cultura de debriefing estruturado em que as decisões são analisadas à luz da informação disponível no momento, e não apenas pelo resultado, reduzindo o impacto do viés de resultado e permitindo que a tripulação aprenda de forma mais realista com quase‑ocorrências. Terceiro, reforçar práticas de “pausa tática” (time‑outs, cross‑checks formais, verbalização de alternativas) em momentos‑chave do voo, criando oportunidades deliberadas para romper a inércia cognitiva e reavaliar o risco.
Para o piloto profissional, reconhecer que “pensar bem” não é apenas seguir SOPs, mas também entender como o próprio cérebro distorce a realidade, é uma competência de segurança tão crítica quanto a proficiência técnica. A próxima decisão difícil que tomar em rota pode estar a ser filtrada por vieses que não vê — mas que podem ser mitigados se forem conhecidos, discutidos e treinados sistematicamente.
Bons voos!
Comandante Luiz Bassani
Fontes
SKYbrary – artigos sobre Continuation Bias e seus efeitos na decisão de pilotos.
Artigos e notas de segurança sobre “get‑there‑itis” e plan continuation bias em aviação geral e linha aérea, incluindo estudos NASA.
Textos e análises sobre a ligação entre plan continuation bias e confirmation bias em decisões de pilotos.
Literatura de psicologia aplicada e guias de EBT/CRM sobre outcome bias, aprendizagem com near‑misses e integração de vieses cognitivos no treinamento.
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